Minha
análise e relato da Greve Geral vai por ângulo e viés diferentes
de boas análises e relatos que li nos últimos dias sobre a grande
Greve Geral de 28 de abril.
Greve
Geral exige, em primeiro lugar, unidade de todas as forças sociais e
populares. Quando eu ia chegando quatro e meia da madrugada próximo
à empresa de ônibus Sudeste na zona leste de Porto Alegre, um grupo
de barulhentos militantes do PSOL caminhava pela rua Albion com suas
bandeiras às costas em direção à garagem. Em frente à garagem,
rua Saldanha da Gama, bairro Partenon, mais de centena de militantes
sociais e sindicais da CUT, CTB e outras Centrais Sindicais, do PT e
outros partidos, de movimentos populares, do Levante da Juventude já
estavam fazendo barulho, gritando palavras de ordem e impedindo os
ônibus de saírem para a rua. Muito frio, que foi sendo diminuído
quando os jovens do Levante dançavam, cantavam, faziam barulho e
esquentavam o ambiente e a vontade de lutar e resistir.
Dia
histórico. Porto Alegre parou. Nem trens, nem ônibus, nem povo na
rua para ir trabalhar. E uma boa notícia. Novas e outras vozes na
luta e na mobilização, como os jovens, movimentos sociais de
periferia. E outras vozes voltando, como a CNBB, os bispos da igreja
católica e seus fiéis, vozes de outras igrejas, a unidade
formando-se na prática e na luta.
Mas
uma Greve Geral também precisa de alegria, de mística e de
sabedoria.
A mística era providenciada pelo Levante da
Juventude com seus cantos contra as Reformas, suas poesias, seus
gritos e versos contra o golpista Temer, suas danças.
A alegria eram os grupos que se formavam, de
diferentes tribos e origens, discutindo a Greve, repassando
informações sobre como estava a greve em Porto Alegre, no Rio
Grande e no Brasil, cada um pescando notícias de informações aqui
e acolá, por amigos e companheiros espalhados por todos os cantos,
com histórias sobre outras greves, por exemplo como na Greve Geral
de 1983 instalamos miguelitos na Estrada João de Oliveira Remião da
Lomba do Pinheiro para parar os ônibus (os tempos então eram mais
difíceis, de ditadura aberta).
A sabedoria foi a instalação na rua de uma
churrasqueira móvel, providenciada pelos sindicalistas do SINPRO -
Sindicato dos Professores particulares - e SINTAE - dos
administradores de escolas - (aliás, pelos relatos, noutra greve não
conseguiram nem retirar a churrasqueira do carro, porque a Polícia
marcava a greve de então de cima, com repressão), carvão dentro,
salsichão com pão quentinho pelas nove da manhã distribuído para
todos. Mais próximo do meio dia, apareceram bananas, bergamotas e
laranjas. E no início da tarde, coxinhas e coxões de galinha com
pão para alimentar quem estava desde a ‘madruga segurando a
bronca`. E em frente à garagem, um buteco modesto garantia o
necessário banheiro, alguma purinha para os mais necessitados e,
pela metade da tarde, mais calma, até uma cervejinha. Segundo
motoristas e cobradores, os donos do buteco sempre deram cobertura às
greves de rodoviários em diferentes ocasiões.
O
clima geral na cidade de Porto Alegre era diferente outras greves.
Ninguém reclamava, nem os rodoviários dentro das garagens, nem os
carros que passavam, até os policiais militares, postados próximos
aos portões da empresa, conversavam com os manifestantes, sem
qualquer sentido agressivo ou de controle da manifestação. Nos
fechamentos de estradas, segundo diferentes testemunhos, quando a
estrada era liberada, caminhoneiros buzinavam em apoio, pessoas
manifestavam-se favoravelmente à greve. Nenhuma contrariedade.
Cidades pequenas e médias do interior do Estado totalmente paradas e
com grandes mobilizações nas ruas. Parecia que todo mundo
compreendera a necessidade da Greve Geral contra as Reformas, contra
o governo golpista, a favor da democracia e dos direitos. Juízes e
promotores, ineditamente, fizeram manifestação e caminhada pelo
centro de Porto Alegre. Menos, é claro e como sempre, a grande
imprensa, local e nacional, que preferiu dar ênfase a alguns poucos
incidentes aqui e acolá. Quem salvou mais uma vez a pátria e a
informação foi a imprensa internacional, que informou o tamanho da
greve em todo Brasil e seu significado político, além das redes
sociais que hoje contrabalançam as Globos e RBSs da vida e da má
informação.
Ficamos
na frente da garagem até as quatro e meia da tarde, para garantir
que nenhum ônibus saísse. Mais de doze horas de vigília e
companheirismo. Assim aconteceu em todas as garagens de ônibus de
Porto Alegre: mobilização com unidade e alegria.
O dia 28 de abril entrou para a história. E
mostrou que há vida e consciência na população brasileira e na
classe trabalhadora. Tendo claro, no entanto, que uma ou mais Greves
Gerais, por mais gerais que sejam, não bastam para fazer cócegas no
esquema de poder instalado e sua decisão de ferir direitos e a
democracia. É preciso ir além, para ações mais fortes, mais duras
e diretas, para a desobediência civil, por exemplo. A direita
conservadora, como em 1954 e em 1964, é capaz de tudo. Mas isso já
tema de outro artigo e análise.
Selvino
Heck
Deputado
estadual constituinte (1987-1990)
Em
cinco de maio de dos mil e dezessete
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