“Algo
está mudando lá na ponta. O povo está começando a se dar conta do
que está acontecendo no Brasil”, diz Frei Sérgio Görgen em
conversa na Romaria da Terra, terça de carnaval, no Assentamento da
Fazenda Annoni em Pontão, Rio Grande do Sul. Ele, frei Sérgio, e os
militantes do MPA (Movimento dos Pequenos Agricultores) estão
percorrendo casa por casa, município por município do Rio Grande,
com Assembleias finais, para explicar a Reforma da Previdência, e me
convidou para participar em algum momento.
O
carnaval foi invadido pelo Fora Temer. Até a Globo não pôde omitir
a verdade e a informação. Aliás, tal como fez nas Diretas-Já nos
anos 1980. Quando as Diretas já tinham invadido a sociedade, grandes
comícios aconteciam em todo Brasil, a Globo foi ‘obrigada’ a
informar uma das maiores mobilizações sociais já vistas no Brasil.
Agora, 2017, mesmo que no último dia de carnaval (numa estratégia
de mídia para não haver aumento das manifestações), a notícia
apareceu: em todas as capitais e muitas cidades, em muitos blocos de
carnaval, em apresentações de Caetano Veloso e Bete Carvalho, o
grito de Fora Temer explodiu e sacudiu as avenidas, numa resposta
popular e espontânea ao governo golpista, aos seus desmandos e
ameaças à democracia.
Na
Romaria da Terra não foi diferente. No final da celebração, mas
que ainda não terminara, depois da fala do bispo, de repente ecoou
um sonoro e espontâneo Fora Temer debaixo das árvores da Annnoni
entre os milhares de participantes.
Poderia
dar muitos outros exemplos de que algo está mudando na base popular,
como chamou a atenção Frei Sérgio. O Fórum Social das
Resistências, acontecido em Porto Alegre em janeiro: muita
juventude, participação cheia de energia e sonhos, muito Fora
Temer. As greves, algumas vitoriosas, como a dos municipários de
Florianópolis, depois de mais de um mês de paralisação; a
mobilização geral de professores de Porto Alegre contra Decreto
autoritário do prefeito Marchezan; as mobilizações que estão
crescendo contra a Reforma da Previdência, de agricultores
familiares e outros atores sociais, e a criação do Comitê Gaúcho
contra a PEC da Previdência, reunindo todas as forças políticas e
organizações sociais contra a perda de direitos do povo
trabalhador.
As
mobilizações das mulheres para dia 8 de março, Dia Internacional
da Mulher, estão se desenhando com muita força e participação:
luta contra a reforma da previdência e nenhum direito a menos: ‘A
Resistência das Mulheres em seus Territórios’.
Ou
seja, não está tudo dominado, como às vezes parecia.
O que fazer? Fazer como o MPA, por exemplo: visita
casa por casa, família por família, Assembleias municipais para
explicar as Reformas antidemocráticas e anti-classe trabalhadora.
Aproveitar a Campanha da Fraternidade, que tem como tema
‘Fraternidade: Biomas brasileiros e Defesa da Vida’ e como lema
‘Cultivar e guardar a Criação’, afirmando os direitos dos
pobres e trabalhadores a uma vida digna e saudável.
João
Pedro Stédile, dirigente do MST, falando às romeiras e romeiros na
Romaria da Terra, e fazendo uma análise do momento político - a
corrupção das elites que vem de muito tempo e seu pouco apreço à
democracia ao longo da história -, econômico - a venda de terras a
estrangeiros, as privatizações, a desnacionalização das riquezas
-, social – a perda de direitos, o fim de políticas sociais, o
aumento do desemprego, a desigualdade -, cultural – a violência, a
perda de valores –, disse que duas coisas são fundamentais nesta
conjuntura, coisas que ‘o povo das CEBs (Comunidades Eclesiais de
Base) sempre fez ao longo da história, segundo ele: formação
política e muito trabalho de base.
Por
isso, deu pra ti baixo astral. A virada está acontecendo ou por
acontecer? Longe disso. Há uma longa jornada pela frente. As elites
brasileiras, vendilhonas, antinacionais, antidemocráticas, nunca
deram nada de graça ou por livre opção, nem mesmo o fim da
vergonhosa escravidão.
A mobilização social e a conscientização são
a melhor senão a única arma e instrumento que as classes
trabalhadoras têm em suas mãos e sob seu controle. E elas estão
acontecendo em 2017, cada vez com mais tambores, com mais greves, com
caminhadas na rua, com protestos. A base popular pode estar
acordando, mais uma vez. E vão continuar.
Selvino
Heck
Deputado
estadual Constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)
Em
três de março de dois mil e dezessete
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