Selvino Heck
Deputado estadual constituinte do Rio
Grande do Sul (1987-1990)
Em seis de janeiro de dois mil e
dezessete
O que e sobre o que escrever neste
alvorecer de 2017 já cheio de tragédias, algumas anunciadas como a
de Manaus, dezenas de presidiários mortos?
Aí lembrei-me que, na semana entre o
Natal e o Ano Novo, quinta dia 29, participei de uma plenária de
preparação do Fórum Social das Resistências, que acontecerá em
Porto Alegre de 17 a 21 de janeiro, no Parque da Redenção. A
plenária foi no Assentamento 20 de Novembro, a poucas quadras de
onde moro, a duas centenas de metros da Rodoviária de Porto Alegre,
e que eu não conhecia, a não ser por ouvir falar.
É uma ocupação urbana, um velho
casarão de um prédio federal abandonado, conquistado depois de
muita luta pelo MNLN (Movimento Nacional de Luta pela Moradia) em
março de 2016. Lá moram umas dezenas de famílias, que têm, além
da moradia, um terraço onde são cultivadas plantas e verduras.
Estão organizados na Cooperativa 20 de Novembro. Acomodamo-nos no
final da tarde na entrada do prédio, os moradores todos felizes,
cada pouco alguém chegava da rua, depois do trabalho, carregando um
carrinho com o qual sobrevive, outros participando da reunião. Vão
oferecer hospedagem solidária para os participantes do Fórum e
estão preparando uma noite cultural em espaço na entrada do 20 de
Novembro na semana do Fórum. E há outros Assentamentos pela cidade,
como a Ocupação Lanceiros Negros, a Saraí. São lutadores e
lutadoras do povo.
Nessa caminhada de preparação do
Fórum Social das Resistências, fui descobrindo outras novas vozes.
Como o Instituto Parrhesia Erga Omnes e um dos seus líderes, o
Sinistro. Pahrresia, fui relembrar dos tempos de estudo de grego,
significa livre fala, liberdade de expressão. O Instituto Parrhesia
atua na utilização de mídias alternativas e culturas de
resistência, e ajuda a propagar, através da educação não formal,
conhecimento e informação para todos.
Fui descobrir e conhecer o Preserva
Arado, um Movimento para preservar a Fazenda Arado Velho, de 426
hectares, no Bairro Belém Novo, ameaçada de ser ‘ocupada’ por
condomínios de elite. Diz seu folder
(www.preservaarado.wordpress.com):
“Queremos manter nosso bairro com esse jeito do interior dentro de
Porto Alegre, com desenvolvimento e geração de renda a partir das
vocações naturais e culturais que só aqui temos! A região Sul de
POA é onde se produz alimentos. Podemos transformar Belém Novo em
um centro de produção de agricultura orgânica.” Para quem não
sabe, Porto Alegre é uma das poucas capitais com mais de um terço
de área rural.
Fui conhecer mais de perto o
‘soylocoporti’, criado em 2007 em Curitiba, junto ao Cefuria
(Centro de Formação Irmã Araújo), que trabalha pela integração
latino-americana da cultura popular e democratização da
comunicação.
Estou falando de algumas das dezenas
de organizações que estão participando ativamente da preparação
do Fórum Social das Resistências: movimentos de mulheres, LGBT, os
povos e comunidades de matriz africana, o Movimento Nacional da
População de Rua e seu jornal Boca de Rua, com 15 anos de históira
(http://jornalbocaderua.worpress.com),
o Fórum Permanente de hip-hop. (Contatos e informações do Fórum:
www.forumsocialportoalegre.org.br;
https://wwwfacebook.com/forumsocialdasresistencias;
comunica.fsmt@gmail.com;
espaço.fsm.poa@gmail.com).
São outras e novas vozes no pedaço.
Como a dos estudantes que ocuparam escolas em 2016. E que não se
calarão, haja o que houver. Que não só querem ser ouvidos quanto
falam e falarão, gritando por democracia, direitos, cidadania. O
povo não se entrega, resiste, como vai-se se ver e ouvir nas
Plenárias dos Povos e dos Movimentos em Resistência, por mais
Democracia e mais Direitos dos Povos e do Planeta. O Fórum Social
das Resistências é um dos espaços onde estas vozes se encontram,
dialogam, constroem juntos alternativas, futuro, esperança.
Escrevi na segunda metade dos anos
1970, um livro de poesia nunca publicado, A MANHÃ VAI CHEGAR,
dedicado, por coincidência, ou porque os tempos não mudaram tanto,
ou porque a luta continua, “aos companheiros do DCE e Diretórios
Acadêmicos da PUCRS, gestão 75/76, e a todos os estudantes que
ainda gritam, pensam e participam”. O poema principal diz”: “A
manhã há de chegar,/ eu sei./ Com ventos e tempestades, mas vai
chegar./ E vai habitar/ nas curvas do homem,/ nas esquinas do mundo,/
nas circunstâncias da história./ E vai resplandecer o povo/ com seu
frescor,/ sua claridade e ternura./ E vai armar o povo/ de palavras./
Vai proclamar a liberdade/ e expulsar o medo./ A manhã vai chegar/
sem fantasmas,/ sem fomes,/ sem mordaças./ O povo sairá nas ruas,/
unirá as mãos/ e a bandeira da liberdade/ finalmente/ vai drapejar
no continente./ A manhã há de chegar,/ eu sei.”
Eram então tempos de ditadura.
2017 promete!
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