23 de junho de 2016 Pedro Lorenzi Breier
Por Pedro Breier, correspondente policial do Cafezinho
E Miguel do Rosário, editor-chefe do Cafezinho
Os
portais amanheceram dando manchetes para a operação Custo Brasil,
um desdobramento da Lava Jato oriundo de inquérito policial
instaurado em São Paulo. Foram expedidos pela 6ª Vara Criminal
Federal de São Paulo 11 mandados de prisão preventiva, um deles
endereçado ao ex-ministro dos governos Lula e Dilma Paulo Bernardo e
outro ao Secretário de Gestão do governo Haddad, Valter Correia; 40
mandados de busca e apreensão, tendo como um dos alvos a sede do PT
em São Paulo; e 14 mandados de condução coercitiva. Entre os
conduzidos coercitivamente (babaquice autoritária que só se usa
quando o objetivo é produzir espetáculo midiático e factoide
político) estão o jornalista Leonardo Attuch, idealizador do site
Brasil 247, e o ex-ministro do governo e braço direito de Dilma
Roussef, Carlos Gabas.
Num
só tacada, o golpe mata vários coelhos: a prisão ou condução
coercitiva de pessoas próximas à Dilma constrange a ex-presidenta e
reaquece o clima de golpe no Senado; a prisão de secretário de
Haddad dá fôlego aos concorrentes do prefeito nas eleições
municipais em São Paulo, maior cidade do país. E a condução
coercitiva de Leonardo Attuch é aparentemente uma ação de censura
política, por seu trabalho no Brasil 247, considerado pró-petista -
e acontece dias depois do governo Temer suspender contratos
publicitários já assinados com o site. A truculência, assim como
foi a praticada contra Breno Altman, editor do Opera Mundi, ocorrida
há alguns meses, tem o objetivo puro e simples de desmoralizar o
trabalho do Brasil 247, site que tem veiculado críticas ao governo
Temer, ao golpe e ao uso político do Judiciário.
Quebrar
as pernas da comunicação antigolpista faz parte, obviamente, da
estratégia do golpe, visto que este, para se consolidar socialmente,
precisará consolidar sua hegemonia ideológica sobre a opinião
pública brasileira. A narrativa do golpe precisa reinar absoluta,
sem contestação: para isso trabalham os grandes jornais, os
institutos de pesquisa, as redes de televisão. Os blogs críticos
devem ser asfixiados; de preferência, fechados.
As
matérias repetidas na grande imprensa contra os blogs - de que
receberiam tanto dinheiro de publicidade federal - serviram
naturalmente a este objetivo.
É
preciso deixar Dilma completamente isolada, órfã, indefesa, para
facilitar a sua degola final no Senado.
Após
a enxurrada de denúncias diárias contra membros do governo Temer,
as quais provocaram a queda de três ministros; após a péssima
repercussão do golpe na imprensa internacional; e com a permanência
da mobilização social dentro e fora do Brasil contra o governo
ilegítimo, a Lava Jato, através de sua "filial" em São
Paulo, entra em cena novamente para salvar o golpe, desviando o foco
do desastroso governo interino, ao fornecer combustível para que a
grande imprensa eletrônica, escrita e televisiva alinhe suas
manchetes contra o PT.
Tanto
a prisão preventiva do Paulo Bernardo quanto as conduções
coercitivas de Leonardo Attuch e Carlos Gabas são claramente
excessivas e desnecessárias, pois são pessoas públicas, com fortes
raízes profissionais e familiares no Brasil, e que não tem,
evidentemente, interesse em fugir do país. Além disso, se quisessem
destruir provas já o teriam feito há muito tempo, e como não são
mais integrantes do governo (no caso de Gabas e Bernardo), não
possuem meios para interferir nas investigações.
Há,
no entanto, uma ironia trágica na prisão de Paulo Bernardo. Como
ex-ministro da Comunicação, Bernardo foi um dos pilares da
estratégia dilmista de desmontar qualquer estratégia de
democratização da mídia. E agora ele é preso pelas forças
conspirativas articuladas pela mesma mídia à qual ele se curvou
durante seu mandato.
A
"filial" da Lava Jato em São Paulo mantém o timing
político da sua matriz no Paraná. As conspirações golpistas, que
produziram o impeachment e criaram um clima de intolerância e ódio
fascista no país, acabam de chocar mais um ovo da serpente, desta
vez no Judiciário paulista.
Era
esperado: todos os juízes querem ser celebridades como Sergio Moro!
Holofotes significam poder, fama e dinheiro.
Quando
a coisa começa a ficar feia para o golpismo, a Lava Jato - ou suas
filiais - entra em ação para relembrar ao público que o alvo é o
PT. Foi assim nas grandes manifestações contra o impeachment que
ocorreram antes da votação na Câmara: um dia depois as manchetes
tinham como foco a nova operação da Lava Jato. O método se repete
no momento em que o governo Temer fica cada vez mais insustentável.
Todas
essas ações de hoje integram um dos primeiros capítulos da nossa
Noite de São Bartolomeu, já prevista por alguns analistas, ou seja,
o início de um sombrio período de caça às bruxas, suspensão de
direitos e liberdades, e truculências judiciais apenas vistas em
Estados de Exceção.
É
importante lembrar que o golpe não é apenas o impeachment. O golpe
é, sobretudo, essa atmosfera de suspensão de direitos e garantias,
que atinge inclusive (mas não apenas) o direito maior da democracia:
a eleição do presidente da república.
Por
essa razão, não é prudente comemorar quando o Estado de Exceção
atinge o adversário, porque é próprio das conspirações atacarem
alvos diversos, com fito de construir unanimidade na opinião
pública, condição necessária para produzir uma correlação de
forças que as permitam desferir seus ataques mais explicitamente
políticos e arbitrários.
Atualização:
Attuch informa que, no seu caso, não houve condução coercitiva.
Houve outros pedidos de prisão bem focados no PT, como o
ex-tesoureiro do PT, Paulo Ferreira, e o advogado das campanhas de
Gleise Hoffmann, Guilherme de Salles Gonçalves.

Nenhum comentário:
Postar um comentário