A saga dos
lacerdinhas e o fim do monopólio do rótulo
Postado por Juremir
em 22 de julho de 2012 - Cotidiano
Durante muito anos,
ouvindo rádio, vendo televisão e lendo jornais, eu me espantava com
uma unanimidade: todos os dias os mesmos rotulavam as mesmas pessoas.
Todos os dias os
mesmos rotulavam pomposamente seus oponentes de:
- Radicais
– Xiitas
–
Fundamentalistas
– Ecochatos
– Malas
– Ignorantes
– Retrógrados
– Intransigentes
– Fanáticos
– Raivosos
– Obcecados
ideológicos
Faziam isso em
vários registros: ataques diretos, tom de ironia, pretenso humor,
etc.
Tinham o monopólio
do insulto, da rotulação, da etiquetagem. Só eles falavam. Era
tanta convicção que não parecia haver espaço para a dúvida ou
para o questionamento. Quem ia ver de muito perto o que estava
acontecendo, claro, descobria o óbvio:
– Radicais,
xiitas, fundamentalistas, malas, ecochatos, ignorantes, retrógrados,
intransigentes, raivosos, fanáticos e obcecados ideológicos era
todos os que atrapalhavam os interesses daqueles que tinham o
monopólio do rótulo na mídia amiga.
Curiosamente quase
todos os rótulos aplicados por eles cabiam-lhes perfeitamente. Os
lacerdinhas podem ser definidos, caracterizados e explicados aos
marcianos como:
– Radicais
– Xiitas
–
Fundamentalistas
– Agrochatos
– Malas
– Ignorantes
– Retrógrados
– Intransigentes
– Raivosos
– Fanáticos
– Obcecados
ideológicos
Há uma diferença:
um lacerdinha é fanático, um obcecado ideológico que se acha
neutro, acima das ideologias, objetivo, imparcial, detentor da
verdadeira verdade.
Cansei de ver
pessoas de diferentes partidos, marxistas ou não, sendo rotulados
com a maioria das etiquetas aqui apresentadas como sendo meras
constatações.
– Leonel Brizola
era radical
– Maria do
Rosário era fanática, raivosa, intransigente, etc.
– Luciana Genro
idem
– Henrique
Fontana também
– Heloísa Helena
nem se fala.
Toda a esquerda era
fundamentalista, fanática, ideológica, intransigente, etc.
Que estranho, que
curioso: Paulo Maluf nunca recebia esses rótulos. Podia ser chamado
de ladrão, mas de fanático e obcecado ideológico, pelos
rotuladores da mídia, não.
Aprendi que todos
os fanáticos e radicais eram bem menos fanáticos e radicais que
seus rotuladores, que chegavam, e chegam, a babar de raiva e
fanatismo quando os rotulam.
Nos últimos anos,
depois da morte do fanático principal da mídia fashion, Paulo
Francis, que herdara a verve inescrupulosa de Carlos Lacerda, surgiu
uma penca de lacerdas com menos brilho, mas com muita baba
ideológica: Olavo de Carvalho, o autodenominado filósofo Pondé,
Reinaldo Azevedo, Arnaldo Jabor, Ali Kamel, Demétrio Magnoli e
outros lacerdões, campões de mediocridade obscena, que são os
ídolos de lacerdinhas regionais e de lacerdinhas sem mídia, numa
cadeia ideológica disseminada.
Falo tudo isso pelo
seguinte: muitos lacerdinhas estão ofendidos. Não aceitam ser
rotulados. Acham que rotulá-los é desqualificação inaceitável,
agressiva e injusta.
Não admitem
expressões como “cérebro de ervilha”.
Sentem-se saudades
do tempo em que só eles podiam rotular.
Dez maneiras de
identificar um lacerdinha:
1 – Um sujeito
que, em nome da direita, diz que não há mais direita e esquerda,
fazendo, em seguida, um discurso furioso, radical e fanático contra
a esquerda que não existe.
2 – Um cara que,
em defesa da sua ideologia, afirma que não existem mais ideologias
e, na sequência, faz um discurso ideológico fanático contra o
ideologismo de esquerda.
3 – Um sujeito
que treme de fúria ideológica, chamando seus oponentes de burros,
atrasados, imbecis, perigosos e radicais, em nome da neutralidade
analítica.
4 – Um cara que,
ao ouvir uma crítica a um ditador de direita, acha que haverá
necessariamente a defesa de um ditador de esquerda.
5 – Uma figura
que jamais criticou a Lei do Boi – cotas para filhos de fazendeiros
em universidades públicas –, mas é contra cotas raciais e até
sociais.
6 – Um tipo que
defende a democracia, mas está disposto a apoiar ditaduras de
direita se elas lhe trouxeram benefícios econômicos e silenciarem
seus oponentes.
7 – Um
“ponderado” analista, defensor do Estado mínimo, que exigirá um
Estado máximo quando sua empresa estiver falindo ou precisando de um
empréstimo a juros baixos.
8 – Um crítico
ferrenho de políticas de compensação por falta de oportunidades
equivalentes salvo quando, como produtor, exige compensações por se
sentir sem condições equivalentes para competir, por exemplo, no
mercado internacional.
9 – Um indivíduo
que passa a vida classificando as pessoas em nós e eles, fanáticos
e razoáveis, estúpidos e racionais, xiitas e ponderados, e, quando
classificado de lacerdinha, faz longos discursos contra esse tipo de
simplificação classificatória.
10 – O
representante de grupos que sempre encontraram maneiras de obter
benefícios a partir de casuísmos, leis de exceção, contingências
mais ou menos justificadas, contextos sociais e históricos, mas que,
quando seus oponentes se organizam para tirar-lhes privilégios ou
reparar prejuízos históricos, transformam-se em defensores de
princípios pretensamente racionais, abstratos e universais de
concorrência.
Há outras maneiras
de identificar um lacerdinha, mais práticas:
– Contra o
golpismo de Chávez, mas a favor do golpe no Paraguai
– Contra cotas,
aquecimento global, áreas de proteção permanente, pagamento de
multas por destruição do meio ambiente, código florestal
ambientalista, impostos sobre grandes fortunas, bolsa-família,
Prouni e outras políticas ditas assistencialista.
– A favor de
incentivos fiscais para empresas multinacionais.
– Contra comissão
da verdade e qualquer investigação que possa deixar mal os
torturadores do regime militar brasileiro implantado em 1964.
– Contra a
corrupção, especialmente se envolver políticos de esquerda, sem a
mesma verve quando se trata de alguma corrupto de direita.
– Sempre pronto a
chamar de petista quem lhe pisar nos calcanhares.
–
Estrategicamente convencido de que a corrupção no Brasil foi
inventada pela esquerda.
– A favor da
universidade pública para os melhores, desde que o sistema não se
alterne e os melhores continuem sendo majoritariamente os filhos dos
mais ricos e com melhores condições de preparação e de ganhar uma
corrida pretensamente objetiva e neutra.
– A favor, quando
se fala em cotas, de melhorar o nível do ensino básico e de ampliar
as vagas para evitar políticas discriminatórias, esquecendo das
tais melhorias assim que o assunto sai da pauta da mídia ou é
superado por alguma final de campeonato.
– Defensor da
ideia de que, na vida, é cada um por si, salvo se houver quebra de
safra, redução nos lucros, crise econômica internacional ou
qualquer prejuízo maior. Nesses casos, o Estado deixa de ser
tentacular, abstrato e opressor para ser uma associação de pessoas
em favor dos interesses da sociedade na sua totalidade.
Faça o teste: quem
preencher 60% dessas características é um lacerdinha.
Teste definitivo:
lacerdinha é todo cara que se ofende ao ser chamado de lacerdinha.
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