“Gente
por favor, me ajudem! Tem uns caras aqui tentando entrar na minha
casa. Por favor, me ajudem!”
Era o grito desesperado da amiga e companheira
Sandra, de alguma cidade do Espírito Santo, via redes sociais, na
noite de segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017, mesmo dia e mais ou
menos mesmo horário em que o ainda Ministro da Justiça, e agora
também da Segurança pública, era indicado para ser o novo ministro
do STF.
Na
mesma noite, um pouco mais tarde, outra amiga, Edivânia, de outra
cidade do Espírito Santo, escreve: “Ai, meu Deus, está um
desespero por aqui! Uma guerra. Horrível. Estamos trancados em casa.
Não tem nem palavras pra descrever o sentimento. Muito triste, o
medo mesmo!”
Quem
não ficaria com medo e assustado vendo as cenas, os vídeos, os
tiros, os saques na televisão, na internet, parecendo que voltamos
aos tempos de barbárie, numa guerra sem valores e sem quartel? Cada
um cuida de si e ninguém cuida de ninguém, muito menos governos,
muitos menos Polícia, iguais bichos do mato sem lei, sem Estado, nem
razão!
O
título pensado para o artigo desta semana era: ‘O que esperar de
2017?’ Mas os acontecimentos deste início de ano precipitaram-se,
estão superando qualquer expectativa e imaginação. A vida
obrigou-me a mudar o título, não o assunto. O que está sendo
2017!!!???
Vejamos
outros dados para dar sentido mais amplo a um título de artigo que
eu jamais pensei em escrever: dar e/ou ver o Brasil como sem futuro,
não mais pátria ou nação, ou quase não mais existente. “Com a
crise, a base da pirâmide social cresce e volta aos níveis de 2011.
As classes D e E ganharam 4,3 milhões de famílias nos últimos dois
anos, num percentual atual de 56,5% do total de domicílios. Em 2003,
esse número era de 70,2%. Em 2014, caiu para 51,4%. O desemprego
aumentou 37% em 2016, ameaçando passar de 12 milhões de
desempregados em 2017, cerca de 20 milhões se contarmos aqueles que
não se declaram desempregados. A renda caiu 2,3% em 2016. Houve um
recuo de 17% da indústria em 2016” (Valor Econômico, 30.01.17).
Não
é, portanto, apenas a violência. É a violência e o medo
antecedidos e/ou acompanhados de desemprego, de fome, de miséria, de
falta de condições de pagar as dívidas, as políticas públicas
criadas nos últimos anos sendo desfeitas, atiradas no lixo, a
população em situação de rua em rápido crescimento.
A
pergunta é: onde vamos parar? O que vai acontecer com o Brasil e seu
povo? Ainda existe Brasil? Onde estão os governos? Cuidando do
golpe? Cuidando de abafar as denúncias, que agora bateram nos seus
costados? Vendendo o Brasil, sua riqueza, suas conquistas e avanços
a troco de banana para o grande capital sedento de lucro, um país, e
seus governos, que, finalmente, tinha conquistado respeito no mundo?
Felizmente,
mais para o final da segunda feira, dia 6 de fevereiro de 2017,
enquanto o ainda Ministro da Justiça, que agora é também da
Segurança Pública, exibia com orgulho no celular aos seus pares sua
indicação para o STF, Sandra, de alguma cidade do Espírito Santo,
depois de muita troca de mensagens com muitos amigos e companheiros
mais que preocupados, escreve, para alívio de todas e todas. “Meus
vizinhos já estão todos aqui. Obrigado, vizinhos e amigos!”
Respirei/respiramos todos aliviados. Se não tem
governo que preste, se não tem Polícia, pelo menos tem vizinhos,
amigos e companheiros que são solidários e cuidam uns dos outros. É
onde temos que nos agarrar: nos amigos, nos vizinhos, nos
companheiros. É o que sobrou. Estado, não há mais. Governos, são
golpistas ou cheio de corruptos, tomados pelo neoliberalismo.
Polícia, cadê a Polícia? E quem é o governador do Espírito
Santo, incensado pelos neoliberais como tendo resolvido todos os
problemas do Estado (como aliás, da mesma forma está fazendo o
governador do Rio Grande do Sul, entre outros, no coro do governo
federal)? Qual o nome deste governador, qual seu partido, já que
quase nunca se diz que é do PMDB, o partido dos golpistas que estão
levando o Brasil ao caos? (Hoje, 10 de fevereiro, cinco dias depois
dos fatos que contei, quando concluo este artigo, o ministro da
Justiça, que também é agora da Segurança Pública, agora
licenciado, anda pelo Senado Federal cabalando votos para ser
ministro do STF, enquanto a situação no Espírito Santo, continua
igual, senão pior, com risco de se alastrar por outros Estados.)
Finalmente,
a grande pergunta: como fazer para recuperar o Brasil-Nação? Como
recuperar a autoestima do povo brasileiro? Recomendo um artigo, entre
outros tantos: ‘A elite brasileira suicida-se’, de Ruben Bauer
Naveira (Em www.luisnassif.com.br).
Diz ele: “O ponto de não-retorno foi ultrapassado; é então uma
questão de tempo.”
Nas
ruas, enfrentar o medo e a repressão (onde isso for possível e
houver um mínimo de segurança). Nas ruas, formando consciência.
Nas ruas, derrubando os golpistas e traidores da pátria. Nas ruas,
vivendo valores que não podem ser esquecidos, como no caso de
Sandra: a construção coletiva, a solidariedade, a compaixão, a
união. Há muito que fazer em 2017.
Selvino
Heck
Deputado
estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)
Em
dez de fevereiro de dois mil e dezessete
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