Selvino
Heck
Em
vinte de janeiro de dois mil e dezessete
“A política sem fé não transforma. A fé sem
política fica estática. Devemos ser sujeitos da fé e da política”.
Foram as palavras iniciais de Olívio Dutra na Roda de Conversa
promovida pelo Movimento Fé e Política/RS, no Fórum Social das
Resistências – Democracia e Direitos dos Povos e do Planeta, na
Tenda dos Direitos Humanos instalada entre as árvores e a brisa do
Parque da Redenção em Porto Alegre, num belo final de tarde de sol
em janeiro de 2017.
Foi uma Roda de Conversa ecumênica e
inter-religiosa. Além de Olívio Dutra, ex-governador do Rio Grande
do Sul, que se apresentou como cristão/católico marxista, falaram
Iyá Sandrali de Oxum (Sandrali de Campos Bueno), do Conselho do Povo
de Terreiro do Rio Grande Sul, Nívia Ivette Nuñez de la Paz,
teóloga cubana anglicana, Fernando Stocho, da Frente Evangélica
pelo Estado de Direito, e Rodolfo Fuchs, da Pastoral Popular
Luterana. E contou com 150 participantes vindos de todas as partes:
jovens, mulheres, militantes das antigas, gente das pastorais,
querendo beber das fontes da fé e da política em tempos tão
difíceis de resistência.
Yiá Sandrali de Oxum disse que nossa fé é
propositiva, persistente e radicalmente amorosa. “Fé sempre foi
sinônimo de luta e resistência. Somos uma população que tem raça,
cor e gênero. Somos daqueles que acreditam na radicalidade da
democracia. O sagrado do outro que está em mim está no outro.
Defender o sagrado é lutar, como urgência absoluta, contra o
extermínio do povo negro. Somos resistentes e nossa resistência
está escrita em nossa mãe Iemanjá. Somos taquaras que se curvam
antes as tempestades, mas jamais se quebram.”
No debate, havia quem quisesse saber mais sobre a
Frente Evangélica pelo Estado de Direito, de quem quase ninguém
conhecia a existência. Disse Fernando Stocho: “Preciso desabafar.
Os evangélicos não são todos homofóbicos, racistas,
fundamentalistas. Devemos e queremos ser sal na terra e luz no mundo.
E renascer para uma vida que respeita a vida humana. Amar é estender
a mão, lutar junto, oferecer o ombro, o abraço, o carinho.”
Rodolfo Fuchs, da Pastoral Popular Luterana,
referenciou-se na Teologia da Libertação e no método Ver, Julgar,
Agir. Jovem, falou de um dos dramas brasileiros do momento, as
prisões. “Há aí um recorte de classe, de cor e etário. A
violência nas prisões tem relação direta com a exclusão social.
A exclusão social pauta a lei social no Brasil. É preciso
aproveitar os espaços para formar as pessoas. A comunidade é o
centro e sendo comunidade é contra o sistema capitalista”.
A teóloga Nívia abriu sua fala com o texto do
Evangelho de João e as palavras de Jesus: ‘Eu vim para que tenham
vida e vida em abundância’. E seguiu, depois de rememorar vários
fatos históricos recentes, onde a direita conservadora tem sido
vitoriosa: “Perder a história e perder a memória é perder a
vida, vida que deve ser abundante e com dignidade. Cada espaço em
que estamos deve ser de dignificar a vida. São os 3 ‘ds’:
Diversidade, Democracia e Direitos.”
Olívio Dutra falou da política. “O ser humano
é essencialmente político e da utopia dos que têm fé e fazem
política. Os meus irmãos guaranis caminham há séculos para a
Terra Sem Males e não desistem. A utopia de um mundo sem guerra, com
paz e justiça, não cabe na sociedade capitalista. É preciso sermos
sementes de mudança, instigantes, provocadores. É processo que
semeia consciência. A luta não é pequena e por isso vale a pena.”
Foram mais de três horas de reflexão, de
conversa, em meio às músicas e hinos de alegria e libertação
conduzidos pela gaita de Célio Piovesan e a voz do bispo anglicano
Dom Humberto, cantadas por todas e todos, e ecoando entre as árvores
do Parque. Júlio Quadros disse que os cristãos e os religiosos de
matriz africana não podem calar ante nenhuma injustiça e lutar
contra a desigualdade. Zeca (José Vermohlen), de Santa Catarina,
ressaltou três questões urgentes: “Expressar o espírito de
denúncia; fazer o anúncio do novo e da esperança no espaço das
comunidades; viver a caridade, no sentido de estender a mão e
convidar para vir junto.” Duas jovens, Alana e Cris, apresentaram a
Associação Pachamama, e convidaram todas e todos a participar. Seu
jornal, Peregrino, diz: “Aqui, neste e em outros movimentos de
Ativismo, andam gritando Tupac, Bartolina Sosa e outros irmãos
libertários que lutaram pela Mãe Terra. Há tanta esperança
dançando entre os corações que não envelheceram no cinismo e no
consumismo. Se teremos sucesso ou não, o futuro o dirá, mas com
certeza estamos apaixonados no intento grupal de parir uma nova
Nação, a Nación Pachamama” (www.nacionpachamama.com}.
E diz uma frase de sua Escola Espiritual: “Por entre ensinamentos
de uma mística viva, um caminho sagrado para despertar”
(escolaespiritual.ma@gmail.com).
É importante falar com sentimento, resumiu Olívio
Dutra na fala final. Foi o que todas e todos viveram e sentiram nas
três horas luminosas. Há esperança quando a fé e a política se
animam mutuamente, e dialogam nos corações e mentes por uma
sociedade com igualdade, justiça, paz e dignidade para todos os
seres vivos.
Selvino
Heck
Deputado
estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)
Membro
da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política
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