Selvino Heck
Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)
Está (quase) todo mundo se perguntando, no campo
popular e da esquerda: Onde foi que erramos? O crescimento da direita
raivosa, a intolerância por todos os lados, a falta de projeto, a
não efetivação de mudanças estruturais, a ausência de uma utopia
libertária, entre outros tantas questões da conjuntura, deixam
muitas perguntas no ar.
As respostas são ou podem ser múltiplas e não
se restringem ao Brasil. Os problemas e dilemas são
latino-americanos, mundiais e atingem indistintamente movimentos
sociais, igrejas, partidos, pastorais, enfim quase todas as
organizações do campo popular.
Tudo nasce como movimento. Depois, com o tempo,
necessariamente se institucionaliza em algum momento e em algum grau,
maior ou menor. Até na vida pessoal, familiar, comunitária. Também
nas organizações sociais e na esfera política. Não existem apenas
as alegrias e a felicidade do namoro. Vêm depois o noivado, o
casamento, os filhos, a rotina, os hábitos arraigados, os problemas
e os limites da vida.
A dificuldade ou o segredo é como manter-se
movimento ao longo do tempo, mesmo passando pela necessária
institucionalização. O movimento é aberto, ouve, dialoga, constrói
o novo no cotidiano, permite o livre fluir das ideias, está pouco
preso a amarras, regras, leis, convenções. É alegria. A
instituição carrega consigo limites, estruturas mais ou menos
pesadas, muitas vezes se fecha, é pouco permeável, enreda-se na
burocracia, engessa o pensamento, vira rotina, cansaço, obrigação.
Há períodos da história em que predomina o lado
movimento, em geral menores. Na maior parte do tempo, a instituição
é dona do espaço e do pedaço. Mas não há como ser sempre e só
movimento. A instituição é fundamental, necessária e
insubstituível. A questão: como manter a alegria do namoro? Como
renovar-se e renovar a instituição sempre, mesmo as mais pesadas,
as seculares, ou as carcomidas pelo tempo?
O problema é quando a instituição, para se
manter e perpetuar, justifica os fins pelos meios. Quando a corrupção
corrói suas estruturas. Quando as teias da burocracia e o
centralismo tomam conta e substituem a democracia. Ou o carguismo, o
apego a salários, vantagens, privilégios e ao poder tornam-se
centrais e conduzem a instituição. Há incapacidade de
autorrenovação. O lado movimento perdeu-se em alguma esquina da
história.
O cientista político Marcos Nobre escreveu
interessante artigo a respeito, falando dos partidos (Marcos Nobre, O
futuro dos partidos, Valor Econômico, 3, 4 e 5/12/16, A8): “Pode
parecer ficção científica para quem se tornou adulto a partir da
década de 1990, mas no Brasil partidos já estiveram presentes na
vida cotidiana das pessoas. Estruturas partidárias chegavam ao nível
local, eram espaços abertos à elaboração de experiências e a
diferentes formas de organização coletiva de ações e
intervenções. Hoje, os partidos não estão mais no cotidiano das
pessoas. Partidos deixaram de ser braços da sociedade no sistema
político para se tornarem braços do Estado na sociedade. Partido
passou a ser sinônimo de partido no poder.”
Os partidos políticos, especialmente os de
esquerda, perderam o lado movimento, e tornaram-se quase apenas
instituição. Institucionalizaram-se, disputam eleições,
ganham/perdem. Saíram das ruas, o projeto de sociedade tornou-se
secundário. Para disputar eleições, precisa-se de dinheiro, que
precisa de estrutura e meios para ser angariado. Ganhando eleições,
governos, mandatos, cargos e suas benesses precisam ter assegurado
continuidade. As direções ‘obrigam-se’ a manter os espaços
conquistados, há crescente dificuldade de ouvir e dar espaço à
base, etc., etc., etc.
A reflexão serve também para movimentos
populares, pastorais, igrejas, ONGs. Serve também para mim,
militante, educador/a popular, lutador/a.
Onde está o sonho? Onde está a relação
cotidiana com o povo? Onde está a militância com causa e coragem?
Cadê a utopia? Como manter a chama acesa?
Os partidos, e a política em sentido mais amplo,
muitas vezes deixaram de ser necessários. Pouco ouvem, pouco
dialogam. Neste contexto, escreve Marcos Nobre: “É aí que
secundaristas ocupam escolas, por exemplo. Para fazê-las funcionar.
Não querem nem ouvir falar de partidos.” Os estudantes que ocupam
escolas, Institutos Federais, Universidades são fundamentalmente
movimento. Encontram-se, lutam e sonham juntos, constroem a ocupação
todos os dias e o tempo todo.
Os tempos precisam ser de reinvenção, de
reencanto. Os tempos são de mais movimento e de menos instituição.
A democracia exige, nesta quadra histórica, que o lado movimento se
(re)apresente e que, para sua construção permanente, o lado
instituição seja diminuído ou profundamente renovado, e,
eventualmente, em alguns casos, algumas instituições sejam até
mesmo enterradas.
Vale para a vida pessoal de cada um, vale para a
comunidade, vale para o movimento social, vale para os partidos
políticos. Menos instituição, mais movimento.
Selvino Heck
Deputado estadual constituinte do Rio Grande do
Sul (1987-1990)
Em nove de dezembro de dois mil e dezesseis
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