Selvino Heck
Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)
Membro da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política
Em vinte e cinco de novembro de dois mil e dezesseis
Pedro
Ribeiro e Teresa Sartorio vão recebendo um a um os membros da
Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política durante a
sexta-feira no Sítio Tarumã, onde moram, em Juiz de Fora, Minas
Gerais. Reunião para analisar a conjuntura e preparar o Plano
Trienal do Movimento. Para refrescar a memória e a garganta, uma
cachacinha acompanhada por um queijo e um torresminho mineiros dos
melhores, a alegre companhia de um vinho e de uma cerveja, tempo e
hora de saudações, de contar o de bom e o de ruim que está
acontecendo, afinal é gente de todo Brasil: Espírito Santo, São
Paulo, Paraíba, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
O
Sítio Tarumã está encravado num vale da Zona da Mata mineira,
cercado de verde e plantas e um casarão de quase 100 anos típico da
região. Não se encontraria melhor lugar para a reflexão sossegada
e profunda que os tempos da fé e da política estão precisando e
exigindo. Está seco, as nascentes dos riachos quase sem água.
Começa a chover, chuva que dura os três dias da reunião, como que
abençoando a todas e todos nestes tempos áridos em todos os
sentidos.
O
Movimento Fé e Política está por completar 30 anos em 2019, quando
se pretende realizar o décimo primeiro Encontro Nacional em
Fortaleza, Ceará, Nordeste. Até lá há um longo caminho a
percorrer, no meio das incertezas e dúvidas gerais dos tempos que
correm no Brasil e no mundo. O Movimento é movimento. Praticamente
sem estrutura, sua Coordenação Nacional se encontra na base da
militância, cada um pagando a viagem do seu bolso, na cara e na
coragem, como, aliás, convém nos tempos em que estamos.
A
conjuntura não está fácil, todos concordam. Trump acaba de ganhar
as eleições nos EUA, na Europa multidões vagam sem rumo e sem
esperança, a intolerância aumenta em todos os lugares, as ameaças
ambientais são concretas e de consequências cada vez mais
imediatas. Na América Latina a direita conservadora avança, no
Brasil a democracia está em risco, a corrupção parece ter ocupado
todos os espaços. Os movimentos sociais resistem à escalada de fim
de direitos. O dia de abertura da reunião é 11 de novembro, dia
nacional de greves, paralisação e mobilização, os estudantes
ocupam escolas, Institutos Federais e Universidades.
Como
ser cristão hoje? Como fazer política?
‘Papa
Francisco, um homem de coragem!’, escreve João Pedro Stédile,
depois do Terceiro Encontro Mundial dos Movimentos Populares em
diálogo com o Papa Franciscano, ocorrido no Vaticano. “O primeiro
Encontro aconteceu na defesa de um programa de que não deveríamos
ter mais ‘nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem
direitos e nenhuma família sem moradia digna’. No terceiro
Encontro estiveram sobretudo presentes os dilemas que a sociedade
moderna está enfrentando em todo mundo. O primeiro tema foi a
questão do Estado e da democracia.”
Escreve
João Pedro: “O Papa reagiu e foi contundente que assombrou a
todos, quando definiu que, na realidade, existe um Estado mais que
excludente, um Estado terrorista, que usa do dinheiro e do medo para
manipular a vontade das maiorias. O dinheiro expressa a força do
capital que sobrepassa as instituições democráticas e o medo
imposto à manipulação midiática permanente.”
A
Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política decidiu realizar
Seminários, com temas como Bem Viver: Economia e Ecologia,
profetismo e política, e retiros sobre a espiritualidade na política
em 2017, organizar Encontros estaduais e regionais em todo Brasil nos
próximos três anos, estar presente e articular-se com as Escolas de
Fé e Política e as Pastorais da Política de diferentes igrejas
cristãs, até o Encontro comemorativo dos 30 anos no primeiro
semestre de 2019 (Contato e informações: www.fepolitica.org.br;
secretarianfepolitica@gmail.com).
Não há tempo a perder. Felizmente, o Papa
Francisco diz a palavra certa na hora certa e anima a caminhada: “Às
vezes, penso que quando vocês, os pobres organizados, inventam os
vossos trabalho, criando uma cooperativa, recuperando uma fábrica
falida, reciclando os descartes da sociedade de consumo, enfrentando
a inclemência do tempo para vender em uma praça, reivindicando um
pedaço de terra para cultivar para alimentar quem tem fome, quando
vocês fazem isso estão imitando Jesus, porque buscam curar, mesmo
que somente um pouquinho, mesmo que precariamente, esta atrofia do
sistema socioeconômico reinante que é o desemprego. Não me
surpreende que aos soberbos não interessa aquilo que vocês dizem.”
E
disse ainda o Papa no Terceiro Encontro Mundial dos Movimentos
Populares e a todos os lutadores/as, sonhadores/sonhadoras e também
ao Movimento Fé e Política: “Mas não tenham medo de entrar nas
grandes discussões, na Política com maiúscula, e cito de novo
Paulo VI: A política é uma maneira exigente mas não é a única.
Ou esta frase que repito tantas vezes, que sempre me confundo, não
sei se é de Paulo VI ou de Pio XII: ‘A política é uma das formas
mais elevadas da caridade, do amor.”
Neste
espírito, terminou a reunião da Coordenação Nacional do Movimento
Fé e Política, em meio ao verde e sob a chuva mansa caindo no Sítio
Tarumã. Como diz alguém, os tempos, da fé e da política, urgem e
rugem.
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