Por Selvino Heck
18 de nov. de 2016.
Dia 25 de
outubro de 2016, 17 h, reunião de preparação do Fórum Social
Mundial (FSM) no CAMP (Centro de Assessoria Multiprofissional), que
vai acontecer de 17 a 21 de janeiro de 2017 em Porto Alegre, Rio
Grande do Sul. Feliz por voltar a participar da preparação de um
Fórum, eu que, no mesmo CAMP, participei da preparação do primeiro
em 2001, surpreso, vejo adentrar na sala o Irmão Antônio Cechin,
antigo companheiro de todas as lutas. Imediatamente vou
cumprimentá-lo, saber como está de saúde, perguntar sobre sua irmã
Matilde e tudo mais, no reencontro de velhos amigos. Diz-me que os
combatentes têm que estar sempre a postos até onde e quando for
possível, que está morando praticamente sozinho, eis que a Matilde
está no interior, e que, aos 89 recém completados, vai fazer talvez
uma última viagem para reunião do Grupo de Emaús no Rio, com
Leonardo Boff, Frei Betto, Luiz Alberto Gomes de Souza, Pedro Ribeiro
de Oliveira, Frei Luís Carlos Susin e outros teólogos e
intelectuais que se reúnem há décadas a partir e em torno da
Teologia da Libertação. Já não aguenta mais as viagens.
Termina a
reunião pelas 19h, ainda há sol, estamos em horário de verão em
Porto Alegre, pergunto se vai para casa. Sim, a pé. Te acompanho,
digo, já que tua rua, a Coronel Vicente, está a meio caminho do meu
apartamento, na Tomás Flores, logo depois do Colégio Rosário, dos
maristas.
Feito
discípulos de Emaús, seguimos cinco ou seis quadras pela rua
Voluntários da Pátria, cheia de povo a essa hora, gente indo para
casa, gente ainda comprando. Ele me pergunta sobre minha volta ao Rio
Grande do Sul. Digo que estou bem e feliz, que ainda não sei bem o
que fazer, recém aposentado, mas que o envolvimento na realização
do Fórum Social Mundial é um bom recomeço de vida no Rio Grande,
depois de mais de 13 anos em Brasília, governos Lula e Dilma. Ele me
fala das suas preocupações com o mundo, a América Latina, o
Brasil, a igreja, feliz com o Papa Francisco. Falamos do impeachment
da Dilma, da democracia, da institucionalização de movimentos
sociais e partidos de esquerda, especialmente o PT, da democracia,
preocupações comuns. Fala com entusiasmo de Sepé Tiarajú, seu
prioritário esforço na beatificação deste santo indígena que
poderá ajudar a superar a visão do gaúcho guerreiro e de grande
parte de suas tradições descoladas dos pobres e dos que mais
sofreram e lutaram ao longo do tempo.
Chegamos na
rua Coronel Vicente, em frente ao prédio onde mora, despedimo-nos
com um forte abraço, eu dizendo que vamos trabalhar de novo de forma
mais próxima, ele me dizendo da felicidade do reencontro de amigos e
companheiros de quase uma vida.
16 de
novembro de 2016, estou em casa de mamãe em Santa Emília, Venâncio
Aires, interior do interior do Rio Grande do Sul, pronto para ir a
Porto Alegre para nova reunião de preparação do FSM. Umas 10h,
recebo mensagem de Egídio Fiorotti: faleceu o Ir. Antônio Cechin,
velório a partir das 13h na casa dos maristas em Viamão (por
coincidência fiz referência a esta casa no último artigo ‘Essa
Juventude!’, local do CETA, formação de jovens nos anos 1970).
Quase caí de costas. Não é possível! O que aconteceu depois do
dia 25 de outubro, quando ele estava tão bem, tão lúcido, arrisco
dizer tão jovem, caminhando cinco ou seis quadras comigo no centro
de Porto Alegre? Queda em casa, quebra da bacia, hospital, não
resistiu. (Refiz a caminhada e o trajeto até a entrada do seu
apartamento dia 17 de novembro, após nova reunião do FSM, desta vez
acompanhado pelo companheiro Mancuso, discípulos de Emaús, nós
dois falando do Ir. Antônio, dos desafios presentes, da vida e do
mundo.)
Chego na
capela dos maristas, Viamão, cheia de agentes de pastoral,
militantes sociais, gente das CEBs e das pastorais, irmãos maristas,
inclusive o provincial, religiosos/as, os ex-governadores Tarso Genro
e Olívio Dutra, deputados, dirigentes sindicais, carrinheiros,
papeleiros, a irmã Matilde, mais que nunca centro de todas as
atenções. Foi triste e alegre. Muito triste pela partida. Muito
alegre pelos cantos das CEBs na sua presença, a celebração de sua
vida, ele o santo e o profeta, como o nomeei na minha fala, e
propondo ao presidente da CUT/RS, Claudir Nespolo, presente: o
próximo Fórum Social Mundial deve ser dedicado a ele, Irmão
Antônio Cechin.
Escrevi em
‘Ir. Antônio Cechin, monumento vivo’, em junho de 2007: “Ir.
Antônio Cechin, marista, está completando 80 anos neste mês de
junho. Sempre que nos encontramos em reuniões, assembleias,
Romarias, digo para todos que ele é o nosso monumento vivo. Ele
protesta. Mas digo que é um monumento que nos serve de referência,
uma bússola do bom caminho. Outro dia o teólogo Fernando Altemeyer,
em artigo no Estadão, quando da visita do (então) papa ao Brasil,
citou-o como um dos membros da ‘escola espiritual da Teologia da
Libertação, feita de larga tradição de muitos patriarcas e
matriarcas’ (09.05.07). Em 7 de setembro de 1979, quando houve a
primeira ocupação de terra no Rio Grande do Sul, fazendas Macali e
Brilhante em Ronda Alta, ele fez o comunicado aos que participavam do
primeiro Encontro de CEBs do Estado, em São Gabriel. Lá estava ele,
assim como nas Romarias da Terra, pensadas por ele, nas ocupações
urbanas em Canoas, na luta com os carrinheiros e os Profetas da
Ecologia, na Romaria das Águas, sempre empunhando a bandeira de Sepé
Tiarajú, santo para ele e para todos nós, na luta por uma Terra Sem
Males.”
Entre as
tantas falas, histórias, lembranças, homenagens, duas chamaram
especialmente a atenção. Um jovem do Levante de Juventude falou
quanto o Cechin, como muitos o chamavam no cotidiano, apoiava o
movimento, o quanto ele se preocupava com os jovens nos seus
encontros: ‘Está tudo bem? Estão bem alimentados? Dormiram? Estão
preparados para o debate?’
E a fala
emocionada do Carbonera, mãos no caixão, mãos nas mãos do Ir.
Antônio, como também era chamado: “Sou Carbonera. Sou
carrinheiro, papeleiro e catador de material reciclável. Ele
defendia os nossos direitos, dizia que éramos gente. Estava sempre
do nosso lado. Ele e a Matilde, quando precisávamos, tiravam parte
de sua aposentadoria para ajudar nossas lutas e nossa organização.
Neste Natal vou sentir muita falta. Ele sempre passava o Natal na
minha casa.”
Irmão
Antônio Cechin, monumento vivo, ontem, hoje, amanhã, sempre. Irmão
Antônio Cechin, santo e profeta. Vai em paz. Seguiremos tua luta,
perseguiremos teus sonhos. Sepé Tiaraju um dia será oficialmente
proclamado santo. Como tu.
Selvino Heck
Deputado
estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)
Membro da
Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política
Em 18 de
novembro de dois mil e dezesseis

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